segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Andava

Durante boa parte da minha vida eu andei com uma faca no peito.
Eu me acostumara com ela,
a ver o sangue sempre escorrendo lentamente.

Um dia eu tirei-a de mim.
Descobri que a faca sempre estaria em mim.
Que a faca me era essencial,
Que a faca era eu tanto quanto o peito,
Que faca era a finitude,
Que a finitude era o começo do nada,
Que o nada era o ser potencial,
Que nos traria de volta,
Após aparentes infinitos processos do nada ao homem- com –uma-faca-no- peito,
ou qualquer outra forma de existir,
que em diferentes processos,
de um diferente universo
possam vir a ocorrer no mesmo tempo,
se lá houver um,
que ocorreu neste universo de eu,
Sergio kroeff canarim,
vir a ocorrer com uma faca no peito.

Será possível que possa o nada trazer outro sérgio kroeff canarim ,
com outra faca no peito,
o qual seja absolutamente eu?
Por que essa mesma faca no peito me faz crer que não?
E ,
mesmo assim,
eu não quero me livrar dela?
Ou,
mesmo assim,
eu não posso me livrar dela,
pois ela é absolutamente eu?

4 comentários:

Cinodonte disse...

Corra com faca no peito Sérgio .. hei espere !!! não há do que correr é melhor uma caminha leve pela vida com prolongados períodos de estase de prazer, nossa melhor defesa contra o medo da finitude, a faca no peito

Cafifo Ribeiro disse...

lindo, canarim!

Emiliano Nunes disse...

Gostei do seu texto. Somos reféns das facas!

Abraço.

Fernanda Copatti disse...

Um dia a faca perde o fio e deixa de ser A FACA...
Beijos